Há alguns anos atrás descobri que CHARLES ANJO 45, personagem de uma música de JORGE BEN JOR, havia existido e estava vivo. Seu nome era AVELINO CAPITANI, morava em Porto Alegre e pleiteava ser ANISTIADO, recuperando com isso seus direitos civis e políticos.
Essa reparação veio em janeiro de 2003, conforme nos informa uma matéria de Nilson Mariano para a Zero Hora de hoje (02/10). Capitani acha que teria direito ao soldo de capitão mas, segundo Mariano, não perde o sono com isso.
A seguir transcrevo informações colhidas no site do SINPRO-RS:
"A história do marinheiro Avelino começou em 1960, no início de uma década polarizada por duas correntes: a esquerda nacionalista e a direita conservadora. Essas eram as expressões da época. Gaúcho de Lajeado, Capitani ingressou na Marinha aos 20 anos. O colono do interior foi direto para o Rio de Janeiro. Dois anos depois, era criada a Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais que tinha como reivindicações o direito ao casamento, o fim do livro de castigos, o direito a andar como civil em casa. A Marinha se negou a conceder esses direitos sociais e, sem muita saída, a Associação acabou se alinhando às chamadas forças nacionalistas.
O que veio depois é uma história pouco narrada nos livros oficiais, mas ainda presente na memória de seus personagens. “À tardinha, no dia posteior ao golpe militar, dez mil soldados estão a postos para atacar três mil marinheiros, aquartelados, com tanques e canhões; se aproximando do Rio, mais 50 mil soldados vindos de São Paulo”, recorda. Capitani estava no comando do movimento e viu homens chorando com a iminência da morte.
Como revanche à ousadia dos marinheiros, veio a perseguição às lideranças do movimento. Ao todo, 1.509 homens foram expulsos e processados; 400 foram condenados. A soma total das penalidades chega a 13 séculos de prisão, 1.300 anos, “a maior pena coletiva da história do Brasil”. A Marinha, além disso, mandou ofício circular para todas as empresas brasileiras proibindo dar oportunidade de emprego aos condenados. Sem alternativa de vida, muitos se refugiaram no interior, outros foram viver de biscate. E uma outra parte, onde Capitani se inclui, caiu na clandestinidade.
Capitani foi preso, fugiu, se asilou no Uruguai e fez treinamento de guerra em Cuba. De volta ao Brasil, clandestino, participou da Guerrilha de Caparaó - o primeiro foco guerrilheiro no Brasil. Foi mais ou menos nessa época que surgiu o codinome que o acompanhou por um bom tempo de sua vida: CHARLES ANJO 45.
O nome de guerra era Charles porque ele era LOIRO, parecendo um europeu. ANJO porque numa das penitenciárias foi atendido por um grupo de estagiárias de assistência social que o apelidaram de anjo loiro. E 45... bem, porque na guerrilha ele usava uma pistola 45.
Quando foi ferido, o anjo loiro subiu o morro para escapar do cerco. Na fuga, foi ajudado por moradores da favela, mas deixou um rastro de sangue. “Como eu desapareci, pensaram que eu estava morto. Daí o Jorge Ben fez a música”, relata. Capitani viveu clandestinamente até a promulgação da lei da anistia, em 28 de agosto de 1979".
Um grande mistério foi esclarecido, Avelino Capitani está vivo e, apesar das torturas sofridas, goza de boa saúde, mas outro mistério continua: JORGE BEN JOR, compositor inspirado (tenho vários CDs e LPs dele) nunca foi muito ligado em temas políticos. Talvez a única excessão seja CHARLES ANJO 45 (não lembro de outra). Minha admiração pelo Babulina, parceiro de Caetano, Gilberto Gil e tantos outros, cresceu ainda mais. Portanto fica a pergunta: O que o levou a escrever essa maravilhosa canção?
Enquanto aguardamos a resposta, deliciem-se com a letra de CHARLES ANJO 45, uma homenagem ao marinheiro AVELINO CAPITANI.
Charles Anjo 45
Jorge Ben Jor
Ôba, ôba, ôba Charles
Como é que é
My friend Charles
Como vão as coisas Charles?...
Charles, Anjo 45
Protetor dos fracos
E dos oprimidos
Robin Hood dos morros
Rei da malandragem
Um homem de verdade
Com muita coragem
Só porque um dia
Charles marcou bobeira
Foi sem querer tirar féria
Numa colônia penal...
Ôba, ôba, ôba Charles
Como é que é
My friend Charles
Como vão as coisas Charles?...
Charles, Anjo 45
Protetor dos fracos
E dos oprimidos
Mas Deus é justo e verdadeiro
E antes de acabar as férias
Nosso Charles vai voltar
Para alegria geral
Antecipando o carnaval
Vai ter batucada
Uma missa em ação de graças
Vai ter feijoada
Whisky com cerveja
E outras milongas mais
Ôba, ôba, ôba Charles
Como é que é
My friend Charles
Como vão as coisas Charles?
Charles, 45...
Charles, Anjo 45
Protetor dos fracos
E dos oprimidos
Mas Deus é justo e verdadeiro
E antes de acabar as férias
Nosso Charles vai voltar...
Para alegria geral
Antecipando o carnaval
Vai ter batucada
Uma missa em ação de graças
Vai ter feijoada
Whisky com cerveja
E outras milongas mais...
Ôba, ôba, ôba Charles
Como é que é
My friend Charles
Como vão as coisas Charles?...
Quinta-feira, 2 de Outubro de 2008
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1 comentários:
Parabens pelo texto Poti, sempre achei que o Charles nao era um personagem fictcio, mas tambem pensava que era um carioca do morro, nunca imaginei que era um oficial da marinha e ainda um gaúcho. Conheci a musica no final dos anos 80 no disco "D" do Paralamas do Sucesso, ao vivo em Montreaux. Das inumeras versões é a eu mais gosto, talvez por ser a que eu conheci.
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